ERA UMA VEZ...

segunda-feira, março 27, 2006

2 Abril-Dia Internacional do Livro Infantil

Desde 1967 que o dia 2 de Abril, data de nascimento de Hans Christian Andersen, é celebrado como o Dia Internacional do Livro Infantil, que tem por finalidade promover o gosto pela leitura e atrair a atenção das crianças para os livros.
Em cada ano, uma das secções da IBBY organiza as comemorações desta data, convidando um autor e um ilustrador do seu país a produzirem, respectivamente, um texto e um cartaz que aqui reproduzimos. Foram autores da mensagem Ján Uliciansky e do cartaz Peter Cisárik da Eslováquia.


"O DESTINO DOS LIVROS ESTÁ ESCRITO NAS ESTRELAS"

Os adultos perguntam com frequência o que se passará com os livros quando as crianças deixam de lê-los? Esta poderia ser uma das respostas:

“Carregamos os livros em grandes naves espaciais e enviamo-los para as estrelas”

Maravilhoso...!

Os livros são na realidade como as estrelas que brilham na noite. Há tantos que não se podem contar e por vezes estão tão longe de nós que não nos atrevemos a ir buscá-los. Imaginemos, no entanto, a escuridão que reinaria se um dia todos os livros, esses cometas do nosso universo cerebral, desaparecessem e deixassem de emitir essa energia sem limites do conhecimento e da imaginação humanos…

Deus meu!

Dizes que as crianças não podem entender semelhante ficção científica? De acordo, então regressarei à terra e permitir-me-ei recordar os livros da minha própria infância. Porque isso foi o que me veio à memória quando estava a contemplar a ursa Maior, a constelação que nós, os eslovacos, chamamos “O Grande Carro”, já que os livros que mais queria me chegaram num carro… Bom, não a mim em primeiro lugar, mas à minha mãe. Aconteceu durante a guerra.

Um dia estava ela à beira do caminho quando apareceu um carro ziguezagueando. Era um carro de feno puxado por cavalos, mas carregado até acima de montões de livros. O condutor disse à minha mãe que estava a levar os livros da biblioteca para um lugar seguro, para evitar que os destruíssem.

Por essa altura, a minha mãe não era mais do que uma rapariga que ansiava por ler e à vista daquele mar de livros os seus olhos brilharam como estrelas. Até então apenas vira carros carregados de feno, palha ou esterco. Mas um carro cheio de livros era algo como um verdadeiro conto de fadas. Assim que teve coragem, perguntou:

Por favor, poderia ao menos dar-me um livro desse grande monte?

O homem sorriu, concordou com a cabeça, saltou do carro, e soltou uma das abas do carro enquanto dizia:

“Podes levar para casa tantos quantos os que caiam no solo!

Os livros caíram ruidosamente sobre o poeirento caminho e pouco depois a estranha carreta desaparecia por trás de uma curva. A minha mãe apanhou-os, enquanto o seu coração saltava no peito de emoção. Quando acabou de lhes tirar o pó, verificou que entre eles, por acaso, havia uma edição completa de contos de Hans Christian Andersen. Nos cinco volumes de diversas cores não havia uma única ilustração, mas, de uma maneira um tanto milagrosa, estes livros iluminavam as noites que a minha mãe tanto temia. Durante essa guerra ela havia perdido a sua mãe. Mas quando lia aqueles livros, ao cair da noite, cada um deles proporcionava-lhe um raio de esperança, secretamente ilustrado no seu coração por umas pestanas que se fechavam, até que se deixava calmamente adormecer, pelo menos durante algum tempo.

Passaram os anos e aqueles livros chegaram às minhas mãos. Levo-os sempre comigo pelos caminhos poeirentos da minha vida. De que pó falo, perguntas?

Ah!

Quem sabe se não estava a pensar no pó das estrelas que poisam nos nossos olhos quando nos sentamos a ler numa noite escura. Se é assim, é porque estamos a ler um livro. Depois disso podemos ler todo o tipo de coisas. Um rosto, as linhas de uma mão, as estrelas…

As estrelas são livros que iluminam o céu de noite.

Quando duvido se vale a pena escrever outro livro, olho o céu e digo que o universo na realidade não tem limites e que ainda há lugar para a minha pequena estrela.

Texto: Ján Uliciansky
Cartaz: Peter Cisárik
Tradução: Fernando do Carmo

2 Comments:

  • At 29 março, 2006, Blogger 125_azul said…

    Que maravilha. não sei como chegaste até mim, mas vim retribuir a visita e fiquei encantada. Grata pelas dicas, tantos livros felizes!

     
  • At 29 março, 2006, Blogger Alexandra F. said…

    não me lembro se foi pelo blog do shark ou da maresia...mas adorei o que escreves.mesmo.
    Algumas coisas vieram mesmo a calhar. volta sempre, estou aqui para dar novas ideias sempre que precisarem.bjs abelha maia

     

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